Conhecimento ecológico local dos pescadores em relação aos peixes do Rio Grande

Durante as pesquisas de campo, 42 pescadores artesanais, que possuíam carteira de pesca profissional, foram entrevistados ao longo do Rio Grande em Minas Gerais. O objetivo das entrevistas foi avaliar o conhecimento ecológico dos pescadores em relação a cinco espécies de peixes que vivem neste rio e comparar com o conhecimento disponível na literatura científica. Em cada entrevista foi apresentada aos pescadores uma fotografia de cada uma das cinco espécies de peixes que o pescador deveria identificar, e em seguida, foram realizadas perguntas padronizadas sobre o comportamento de cada espécie.

Preliminarmente, ao comparar o conhecimento ecológico local dos pescadores com os dados disponíveis na literatura científica observamos um alto índice de acerto das respostas referentes ao habitat, reprodução e alimentação das espécies mais comuns, como a traíra, o mandi-amarelo e a curimba. Com relação ao jaú, espécie pouco abundante e atualmente ameaçada de extinção, o nível de acerto dos pescadores diminui consideravelmente, provavelmente devido à pequena população desta espécie no Rio Grande. A seguir estão apresentados os resultados parciais para cada espécie.

CurimbaCurimbaQuando apresentada a fotografia de Prochilodus lineatus, a curimba, 85% dos entrevistados identificaram corretamente este peixe. Em relação ao local onde este peixe costuma ficar no rio, a maioria respondeu em locais de água corrente (33%) e no fundo do rio (24%). Segundo a maior parte dos entrevistados (95%), este peixe é de piracema e migra entre os meses de novembro e fevereiro (74%), normalmente, para a cabeceira do rio (45%). Cerca de 82% dos entrevistados informaram que a curimba desova entre os meses de novembro a março, principalmente em locais de corredeira (20%). Segundo os pescadores, este peixe vive em cardumes (97%) e se mistura com outros peixes como o dourado (30%) e o piau (19%). A curimba, de acordo com os pescadores, é uma espécie noturna (47%) e sua dieta é composta principalmente por lodo (83%). Cerca de 83% dos entrevistados acredita que esta espécie possui predadores e os mais citados foram o dourado (38%) e o tucunaré (20%). Ainda segundo os pescadores, a curimba pode ser pescada o ano todo no Rio Grande (31%), principalmente durante a noite (82%), no meio do rio (26%) e em locais de corredeira com pedras (19%). Os principais materiais usados na pesca deste peixe são a rede (78%) e o anzol (17%).

DouradoDourado

Nas perguntas sobre o dourado Salminus brasiliensis, 66% dos pescadores acertaram a espécie apresentada na foto. A maioria dos entrevistados (63%) informou que este peixe vive em áreas de corredeira. Cerca de 95% afirmou que este peixe também é de piracema e migra de outubro a março (97%) para a cabeceira do rio (44%). A época de desova deste peixe, segundo os pesadores é entre os meses de outubro de fevereiro (95%) e a desova ocorre em áreas de corredeira (27%). A maioria dos pescadores informou que este peixe vive em cardumes (95%) e que não se mistura com outros peixes (74%). Segundo os entrevistados, o dourado é um peixe diurno (45%), que se alimenta principalmente de outros peixes (78%) e não possui predadores (50%). A melhor época para pescar este peixe, segundo os entrevistados, é entre os meses de novembro e março (51%), durante a noite (64%), no meio do rio (30%) e em locais com correnteza (28%). A rede é o material mais utilizado para a pesca deste peixe (71%).

Mandi-amareloMandi-amareloTodos os pescadores identificaram corretamente o mandi-amarelo Pimelodus maculatus, quando apresentada a foto. A maioria dos entrevistados informou que este peixe vive principalmente em locais fundos com a presença de barro (54%). Aproximadamente 88% dos pescadores informaram que este peixe é migrador e exerce este comportamento entre os meses de outubro e fevereiro (94%), migrando, de acordo com a maioria dos entrevistados (39%), para a cabeceira do rio. Este peixe costuma desovar, segundo os pescadores, entre os meses de outubro e fevereiro (83%), principalmente em locais fundos com pedras (29%). De acordo com 90% dos entrevistados, o mandi vive em cardumes e não se mistura com outros peixes. A maioria dos pescadores informou que o mandi possui hábito noturno (83%) e se alimenta principalmente do lodo encontrado nas pedras e galhos no fundo do rio (43%). Segundo a maior parte das entrevistas (83%), o mandi possui predadores, sendo os principais a traíra (37%) e o dourado (20%). De acordo com os pescadores, o mandi-amarelo pode ser pescado durante todo o ano no Rio Grande (61%) e é mais encontrado no período da noite (85%), no meio do rio (19%) ou em locais fundos (19%). Os materiais citados como mais utilizados para a pesca do mandi são a rede (73%) e o anzol (16%).

JaúJauApenas 57% dos pescadores entrevistados identificaram corretamente, através da fotografia apresentada, o jaú Zungaro jahu. De acordo com os pescadores, este peixe vive no fundo do rio em locais com pedras (37%), e a maioria dos entrevistados (38%) não soube responder se o jaú é uma espécie migradora. Este peixe desova, de acordo com as respostas do questionário, entre os meses de outubro e fevereiro (55%) e em locais mais fundos do rio (21%). A maioria dos entrevistados afirmou que o jaú não vive em cardumes (51%), possui hábito noturno (66%) e se alimenta principalmente de outros peixes (54%). Segundo os pescadores, este peixe não possui predadores (48%) e é mais pescado entre os meses de novembro e fevereiro (44%), principalmente durante a noite (43%) e em locais com corredeiras (33%). Os materiais mais usados na pesca deste peixe são o anzol (28%) e a rede (16%).

TraíraTraíraNas perguntas relacionadas à espécie Hoplias malabaricus, a traíra, todos os pescadores identificaram corretamente a espécie da foto. Em relação ao local em que este peixe vive, cerca de 42% dos entrevistados responderam que a traíra vive nas margens do rio e 33% responderam que este peixe fica em águas paradas. A maioria dos pescadores (57%) disse que este peixe não é migrador e 90% dos entrevistados informaram que ele desova entre os meses de outubro a março, geralmente nas margens do rio (26%). Aproximadamente 90% dos entrevistados informaram que este peixe não vive em cardumes e possui hábitos noturnos (88%). Em se tratando da alimentação, 92% dos entrevistados disseram que a traíra se alimenta principalmente de outros peixes. Cerca de 71% dos pescadores informaram que a traíra possui predadores e os mais citados foram o tucunaré (37%) e o dourado (27%). Segundo os pescadores é possível pescar a traíra durante todo o ano (52%), principalmente durante a noite (90%) e nas margens do rio (64%). Os materiais mais usados na pesca deste peixe são a rede (71%) e o anzol (21%).

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